Viva a mãe de Deus e nossa!

Viva a mãe de Deus e nossa!

É tempo de festa! Os brasileiros, particularmente os católicos, jubilosos celebram os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida! É sabido, mas vale a pena lembrar da história consagrada pela tradição. O Conde de Assumar (Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, 1688-1756), governador da província de São Paulo, faria pouso com sua comitiva na então Vila de Guaratinguetá nos idos de 1717. Os pescadores do lugar foram em busca dos peixes que o Rio Paraíba do Sul lhes dava, para assegurar alimento ao nobre. Porém, o rio não estava para peixes – jogava-se a rede e nada. Até que um dos pescadores recolheu o corpo de uma imagem em sua rede de pesca; logo depois, espantosamente, recolheu a cabeça dela. Juntadas as partes, perceberam ser uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Na sequência, ocorreu o primeiro milagre de Deus por intercessão de Nossa Senhora: as redes se encheram de peixes! Por que a imagem havia ido parar dividida no fundo do rio? Somente hipóteses mais ou menos fundamentadas: há quem aposte que foi jogada ao rio para garantir um “destino digno” em águas correntes, justamente por estar quebrada; outros pensam ter sido arrastada ao rio por conta de enchentes comuns na região, vinda de algum oratório doméstico; e há quem acredite que foi arremessada nas águas por um ato sacrílego. Quanto ao autor que esculpiu a pequenina imagem em estilo barroco, provável que tenha sido o santeiro Frei Agostinho de Jesus (1600-1661), que no século XVII residia em Santana do Parnaíba e produzia imagens para capelas particulares de fazendeiros e oratórios domésticos.

Talvez cause surpresa para alguns leitores ver a imagem sem manto, sem coroa, assim como ela foi encontrada. Olhemos para ela, em sua simplicidade rústica, nada de pompa ou nobreza – é o retrato da jovem de Nazaré, a humilde serva do Senhor. É uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, devoção tão cara aos portugueses que colonizaram o Brasil. Em sua expressão original, a imagem era policromada, mas acabou por assumir uma homogênea cor acastanhada, sinal de proximidade com tantos irmãos arrancados da África e escravizados, com inúmeros mestiços pobres quanto os pescadores aos quais ela se mostrou. Para os pescadores é a aparecida – ela apareceu e se deu a conhecer! Não é Nossa Senhora achada ou encontrada. A iniciativa não é dos pescadores, é dela! É Nossa Senhora Aparecida. Aparição tão diferente do habitual – é palpável, é material, é permanente, sinal sacramental e bonito da mãe do Salvador. Vinda das águas de um rio, fonte de vida para pescadores simples, é questionamento para o modo como temos tratado nossos mananciais. Feita de barro – de terracota – é questionamento para o modo como temos tratado nosso solo e os filhos de Nossa Senhora que da terra dependem para viver, trabalhar e lutar. Mostrou-se dividida, cabeça separada do corpo – é questionamento para o modo como temos vivido nossa fé, tantas vezes separando coração e cabeça, estudo e emoção, razão e sentimentos, louvor e ação social. É preciso juntar para poder viver conforme o Magnificat de Maria, louvando ao Senhor da vida e acreditando firmemente que ele está ao lado dos oprimidos, ao lado dos que nada têm!